sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Recusa de julgamento de dados


É em nome daquilo que se julga ser a racionalidade - mas que não é mais do que a racionalização, isto é, o sistema de idéias autojustificadas - que se recusa o julgamento dos dados; a emergência de uma idéia nova, pelo escândalo que provoca num sistema, pela ruína que ameaça introduzir, é vista como irracional, porque vai destruir aquilo que esse sistema julgava ser a sua própria racionalidade. Foi por isso, aliás, que as primeiras descobertas científicas pareceram inteiramente irracionais.
(...) Na minha opinião, o trágico, não é tanto o que representa o processo de desapossamneto e de perda da reflexão, mas é que a maior parte das pessoas está feliz com isso, "se é assim, está bom" e elas estão absolutamente encantadas. É a história de La Fontaine, O cachorro e o lobo: o cachorro está muito orgulhoso da coleira que usa no pescoço. E chegamos a esse fenômeno: a recusa de se conscientizar da perda da possibilidade de refletir.
(...) Dito de outra forma, a democracia é a produtividade da diversidade.
(...) Em outras palavras, conhecer é negociar, trabalhar, discutir, debater-se com o desconhecido que se reconstitui incessantemente, porque toda solução produz nova questão.


- Livro: CIÊNCIA COM CONSCIÊNCIA-
Edgar Morin.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

O tempo

A sucessão dos anos, dias, horas, etc., que envolve a noção de presente, passado e futuro; momento ou ocasião apropriada para que uma coisa se realize; época, estação; as condições meteorológicas. Gramática: flexão indicativa do momento a que se refere a ação ou o estado verbal. Música: cada uma das partes, em andamentos diferentes, em que se dividem certas peças. Estas são idéias gerais sobre o tempo, segundo o dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Mas abordarei única e brevemente a noção subjetiva de tempo “cronológico”.
Em primeiro lugar, refletindo sobre as palavras de Edgar Morin (sociólogo e pensador francês), quando diz que nosso mundo faz parte de nossa visão de mundo, a qual faz parte de nosso mundo; proponho, de antemão, que nunca chegaremos a uma conclusão exata e inquestionável do que venha a ser realmente o tempo, já que nossas deferências se baseiam na visão que temos sobre o mundo. Por conseguinte, as coisas podem não ser como realmente pensamos que seja; elas podem transcender à nossa razão.
É fascinante o grau de complexidade que apresentam certos debates sobre tempo e espaço. Mas o que vem caracterizar o tempo?
Observo a fotografia de uma criança. Anos depois observo a imagem da mesma pessoa só que em uma fotografia diferente, e percebo que seus traços físicos não são os mesmos. Ela apresenta transformações na aparência. Como também apresenta um outro perfil psicológico. As mudanças podem se apresentar em pormenores, mas é inegável que elas existam.
Saio de casa para uma viagem de três meses. Fica ninguém em casa. Quando volto, observo que as plantas não estão mais tão verdes e vivas como as deixei, afinal, ficaram sem água durante três meses inteiros. Há uma quantidade considerável de poeira nos cantos da casa e sobre os móveis. Descubro, ao abrir a geladeira, alimentos estragados. O que infiro através desses dois exemplos é que a característica primordial pertinente ao tempo é a mudança. O tempo é notado pelas mutações conseqüentes a ele.
Uma outra característica lógica, porém interessante de que fala Edgar Morin, é a “irreversibilidade ontológica do tempo”. Analiso: não se pode “voltar no tempo”. Ele é irreversível, logo, a irreversibilidade é uma característica comum inerente ao tempo, ou seja, é uma característica “ontológica do tempo”.
Por último, apresento outra idéia temporal, ou seja, relativa ao tempo, que é a noção de eternidade. Perfeitamente crível para alguns e não crível para outros. Segundo Vinícius de Morais (compositor de MPB), “que o amor seja eterno enquanto dure”. No soneto, o trecho que antecede diz “que não seja imortal, posto que é chama”, ou seja, um dia deixa de existir. Penso então que o autor não objetivou dar um sentido sobrenatural ao termo “eterno”, pois só será eterno enquanto existir, enquanto durar. Julgo melhor, a expressão “enquanto dure” dá idéia de que em algum momento o amor pode acabar, e considerando que eterno é aquilo que não finda, que é imortal, incessante, então, essa eternidade de que fala Vinícius é natural, conseqüentemente finita.
Isto proposto, pergunto: em se tratando de tempo, o que trará sentido e propósito à minha frágil existência? A crença em uma “eternidade eterna” e satisfatória, realmente inacabável, portanto sobrenatural.
Esta será a recompensa que dará razão às escolhas que fiz e ao que construí durante esse “tempo” natural, finito.